o namoro LGBTQ no Brasil

Quando morei no Brasil por um ano, fiquei muita surpreendida com a cultura do namoro, tanto como a cultura de ficar. Para mim, ouvir que as pessoas namoram pelo menos uns dois anos no mínimo foi o maior choque. Eu tinha experiências como ficar nas baladas e ter um namorado Brasileiro, mas também com o tempo, vi os padrões duplos de ser mulher numa cultura que coloca muito romance e paixão pelos outros. Eu fiquei sabendo mais das expectações colocadas nas mulheres, da infidelidade, e do abuso sexual.

Quando voltei a morar em São Paulo no inverno de 2016, prestei mais atenção para as relações e como a cultura do amor foi representado na mídia. Eu queria aprender mais sobre a comunidade gay, porque é algo que ainda é pouco representado na vida cotidiana dos Brasileiros. Eu entrevistei minha amiga há anos, Alex*, e sua namorada,Sara* para aprender mais sobre o namoro LGBTQ+ no Brasil (nomes foram mudados). Alex, 21 anos, e Sara, 22 anos, moram na cidade de São Paulo.

(as alianças da Alex & Sara)

Como vocês se identificam e expressam sua sexualidade? Alguma expressão que é diferente do padrão de beleza colocado nas mulheres Brasileiras?

Alex: Sou uma mulher cisgênero muito, muito sapatão sim. Diria que me visto um pouco nos estereótipos de sapatão caminhoneira, mas 90% disso é pura preguiça de me arrumar mesmo. Estou bem fora do padrão de beleza brasileiro, de mulheres sempre maquiadas e de salto, vestido ou saia – coisas que nunca uso.

Sara: Essa é uma questão bem delicada. O Brasil ainda é um país que carrega uma cultura onde a mulher é vista muitas vezes como submissa ao homem, mas sinto que aos poucos as coisas estão mundo e acredito que um dia as pessoas terão uma visão com maior igualdade. Tenho uma personalidade mais reservada e muitas vezes acabo não expressando minha sexualidade como gostaria.

Como vocês se conheceram? Por quanto tempo vocês namoram?

Alex: Estamos namorando há 1 ano e 8 meses. Tivemos uma história muito longa, mas pra simplificar, nos conhecemos no ensino médio (quando as duas se achavam hetero) mas nos reencontramos anos depois e começamos a sair, e aqui estamos hoje.

Sara: Eu e Alex já nos conhecemos há uns bons anos, nos estudamos na mesma escola e tinhamos um amigo em comum, mas naquela época nós nunca conversávamos e tudo não passava de um simples “oi, tudo bem?” Os anos passaram e em janeiro de 2016 eu estava em um bar com alguns amigos e esse nosso amigo em comum e ele decidiu convidar a Alex, já que ela estava por perto. Nesse dia eu tive a oportunidade de passar mais tempo com ela, mas não interagimos muito. Os dias se passaram e meu amigo me contou que a Alex estava interessada em ficar comigo, mas na hora a ideia não pareceu agradável e eu recusei (não imaginava que estava fazendo a maior besteira da minha vida hahaha). Como a Alex é uma guerreira, não desistiu de mim (obrigada amor). Na época eu usava o Tinder e certo dia achei a Alex por lá e decidi dar um ‘like’ (confesso que depois que descobri o interesse dela por mim isso não saiu mais da minha cabeça). Outro dia recebi uma notificação dizendo que um match tinha acontecido, e esse match era entre eu e a Alex, mas demorou uns bons dias até ela conversar comigo.

Passamos em torno de 1 mês conversando e nosso primeiro beijo aconteceu em um passeio que fizemos para uma cidadezinha com alguns amigos e apôs outro mês, ela me pediu em namoro e hoje estamos aqui, 1 ano e 8 meses juntas de muito amor, carinho e companheirismo.

(GIPHY: @studiooriginals)

Fale um pouco sobre a comunidade LGBTQ no Brasil, ou a área de São Paulo. As pessoas são mais abertas na sexualidade?

Alex: Bom, eu praticamente só tenho amigos LGBTQ+ e a maioria conheci através de amigos em comum e na faculdade. Acho que em São Paulo especificamente, o cenário gay é bem estabelecido, e podemos ver muitas pessoas bem abertas com a sua sexualidade. Como em todo lugar, ainda há bastante preconceito, o que faz a maioria das pessoas ainda passarem anos tentando se aceitar, o que foi meu caso.

Em relação a encontrar outras pessoas LGBTQ+, acredito que é bem simples. Como eu disse, pelo menos em São Paulo, o cenário gay é bem grande e forte, mas talvez em outras cidades seja um pouco mais complicado, não sei dizer..

Sara: A comunidade LGBTQ+ está cada vez mais tomando lugar na sociedade e eu acho isso incrível. No centro de São Paulo é muito comum ver a comunidade, namorados e namoradas passeando sem se preocupar com o que as pessoas vão pensar. Em São Paulo ainda há lugares com um nível de aceitação difícil. Acredito que 99% dos meus amigos são gays ou lésbicas e eu conheci a maioria através do Twitter porque na época eu era muito fã da Lady Gaga e consequentemente acabei me tornando muito amiga dos outros fãs.

Vocês pensam que a maioridade de pessoas LGBTQ são similares ao vocês em como se conhecem ou na quantidade do tempo que namoram?

Alex: Bom, acho que isso depende muito de cada um. Na minha experiência pessoal e no que vejo com meus amigos, diria que a maioria das sapatões tem relacionamentos bem longos. Já com os caras, a maioria (dos meus amigos, pelo menos) tem relacionamentos mais curtos, e curtem mais ficar do que namorar – claro que há exceções, um amigo está prestes a casar por exemplo, mas não vejo isso na maioria. Além disso, a questão de como o pessoal se conhece, vejo uma grande frequência no uso de apps tipo Tinder, Grindr, Hornet etc. Até eu e a Sara, que nos conhecemos na escola, só começamos a nos falar quando demos match! Hahaha

Sara: A comunidade LGBTQ+ é muito variada e diversificada. Tenho amigos que estão em relacionamento há 3,4 anos, mas também conheço pessoas que nunca namoraram pelo simples fato de preferir não ter aquele compromisso e gostarem mais de curtir uma noite, então essa é uma questão que não consigo ver descrever a comunidade sendo similar ou não. No Brasil é normal ter relacionamentos duradouros de por exemplo 2 anos no mínimo.

(Wix)

Que são alguns desafios que vocês enfrentam?

Alex: Ah, com certeza temos muitos obstáculos. Minha família quase toda sabe, e todos aceitam e respeitam apesar de ao mesmo tempo pensarem se tratar de uma “escolha errada”. Mas com o tempo, essas opiniões foram diminuindo. Minha mãe já chegou a dizer que se “continuar com essa escolha, eu vou para o inferno”, mas não acho que seja como ela ainda pensa hoje em dia. Porém como eu disse, quase a família toda sabe – meus avós, apesar de achar que eles desconfiem no fundo, não sabem que gosto de mulheres. Se soubessem, não sei como iam lidar.

Nas ruas, é um pouco mais complicado. Enquanto eu geralmente sou distraída e até prefiro não reparar em volta, a Sara repara em tudo. Ela sempre comenta quando alguém está encarando, e sempre pede para não ficarmos abraçadas nos metrôs e nem andarmos de mãos dadas, dependendo do bairro onde estamos. Eu tento não ligar para o que os outros pensam, nem se estão nos encarando, mas por outro lado sei que temos que prezar nossa segurança e que infelizmente nem todo mundo aceita a homossexualidade, mesmo em pleno 2018. Apesar de São Paulo ser bem aberta e bem mais receptiva que muitas cidades, com 22 milhões de pessoas é difícil não ter muitos preconceituosos aqui ou ali.

Sara: Eu sinto que enfrento muitos desafios ainda e continuarei enfrentando por uns bons anos. A pessoal julgam, olham estranho quando notam algo que não é considerado “normal” no ponto de vista delas, e isso me incomoda porque as pessoas deveriam se preocupar com questões mais importantes. A única pessoa da minha família que sabe é a minha mãe e no começo foi muito difícil porque ela chorava todos os dias procurando entender o motivo de eu ser assim. Hoje, ela aceita melhor, até faz algumas piadas comigo. Gostaria que a minha família soubesse, mas tenho medo da reação que eles podem ter e só de pensar na ideia eu paraliso. Eu acredito que nunca fomos ofendidas em público ou tiveram algum preconceito com a gente, mas caso isso acontecesse um dia eu gostaria de dizer que qualquer forma de amor deveria ser respeitada e não existe nada mais bonito do que amar alguém de verdade e ser amado.

Em quais maneiras vocês sentem suporte da comunidade LGBTQ? Em quais maneiras vocês se sentem fora da comunidade?

Alex: Hmm… essa foi uma boa pergunta, acho que nunca pensei nisso. Existem alguns grupos online, de Facebook mesmo, que são só para pessoas LGBTQ+ e onde sei que em casos de preconceito, todos se ajudam. Mas, pelo que vejo por aí, não temos uma comunidade tão forte e unida como talvez nos Estados Unidos. Não sei o quanto estou certa a dizer isso, mas acho que vocês (EUA) têm comunidades mais fortes, grupos e centros LGBTQ+, o que é algo que nunca vi por aqui.

Sara: Eu me sinto bem incluída na comunidade, nunca tive a sensação de me sentir fora. Em relação a isso, eu sou bem de boa. Quando eu estava me descobrindo, ouvia vários discursos de pessoas famosas contando que devemos ter orgulho de quem somos e nunca desistir. Uma pessoa que encorajou bastante foi a Lady Gaga.

Tem alguma representação LGBTQ nas telenovelas, celebridades, ou artistas Brasileiras?

Alex: Temos alguma representatividade sim, embora não seja das mais fortes. Atualmente, temos a famosissíma Pablo Vittar, que é uma drag queen e cantora que ficou bem famosa recentemente – apesar de que eu só conheço umas duas ou três músicas, sou uma negação com a música brasileira Hahahah. Também recentemente, uma jornalista se assumiu lésbica e foi maravilhoso! Ela recebeu boa crítica da “família tradicional brasileira”, mas o amor que recebeu da comunidade LGBTQ+ foi muito amor, pisa menos Fernanda Gentil!

Quanto às novelas, realmente tem um impacto enorme. Muitas novelas ultimamente têm posto alguém LGBTQ+, mas uns anos atrás teve o primeiro beijo gay! A família tradicional brasileira ficou horrorizada, querendo boicotar a Globo, “ah porque querem forçar essa coisa de ‘homossexualismo’ na gente” etc. Mas foi um avanço pra comunidade! E também, quem liga para as opiniões da família tradicional brasileira?

Fernanda Gentil, a direita (@gentilfernanda)

Sara: A Globo (principal emissora brasileira) tem colocado o tema “sexualidade” em suas novelas, mostrando um pouco o lado da comunidade e como muitas famílias tradicionais brasileiras assistem aos programas, elas se sentem ofendidas e acham um absurdo mostrarem cenas como por exemplo um beijo gay. Atualmente não apenas em novelas, mas em propagandas de alguns produtos a aparição LGBTQ+ tem se mostrado cada vez mais. Nos temos celebridades brasileiras que são assumidas (os) como a atriz Bruna Linzmeyer.

O que são alguns padrões duplos que vocês enfrentam como mulheres, e como mulheres na comunidade LGBTQ?

Alex: Acho que a maioria dos padrões duplos que percebo no Brasil são os mesmos que vejo fora daqui. Desde que coisas pequenas, como a pressão da sociedade em ser uma mulher feminina, de pernas e axilas depiladas, até a diferença salarial, e abusos verbais nas ruas etc. Toda aquela questão de “por que não posso fazer isso se todo homem que eu conheço fez?”. Agora, não sinto tanto uma diferença no padrão por ser uma mulher lésbica, talvez porque eu não esteja tão inserida no mercado de trabalho e me rodeio de pessoas como eu – talvez, numa próxima etapa da vida, depois de formada e trabalhando na minha área, perceba que realmente existe um padrão diferente para mulheres dentro da comunidade LGBTQ+.

Sara: Quando estou com amigos eu me sinto livre para ser quem realmente sou, o que é diferente quando estou no trabalho. Lá eu procuro ser uma pessoa reservada, mas isso não atrapalha a minha comunicação com os colegas. Procuro separar a minha vida particular do trabalho para que essas duas coisas não se misturam. É comum ouvir comentários machista em ambiente de trabalho e muitos desses comentários são piadas de mal gosto.

(GIPHY, @phazed)

Vocês já conhecem um pouco da cultura nos Estados Unidos e Canada, como é diferente a cultura do namoro no Brasil?

Alex: Não sei o quanto disso está certo, mas acho que no Brasil somos um pouco mais… liberais? Assim, temos essa cultura de ficar, de sair, de pegar varias numa noite só porque deu vontade, enquanto fora do Brasil as pessoas são mais exclusivas, tem toda aquela coisa de sair para muitos dates antes de definir o que é o relacionamento, etc. Antes de conhecer a Sara, eu era muito das baladas, ia duas ou três vezes por semana e pegava todo mundo que passava na minha frente (que fosse mulher obviamente, ou as vezes um amigo viado). Então essa coisa de ser exclusivo e sair em muitos encontros sempre me foi estranho. Aí conheci a Sara e percebi que na verdade, vocês por aí estavam certíssimos. Nada é tão satisfatório quanto uma relação duradoura, calma, e exclusiva hahaha

Sara: O povo brasileiro é bem aberto sobre beijar em lugares públicos, andar de mão dada e demonstrar afeto não importa onde for. É muito comum vermos casais se beijando e essas diferenças eu percebi nos Estados Unidos e Canadá. As pessoas não têm o costume de demonstrar afeto quando estão em ambientes públicos e isso para os brasileiros passa a impressão de são pessoas frias, mas sabemos que não é exatamente isso e que apenas se trata de culturas diferentes.

O que você gosta mais de namorar no Brasil, e o que você gostaria tirar da cultura do namoro aqui?

Alex: Eu gosto muito de algumas tradições, tipo alianças e todo o conceito do pedido de namoro.

Entretanto, algo que odeio e que infelizmente ainda é muito forte no Brasil, é a cultura de “Homens Dominantes” e “Mulheres Submissas”. Muitos casais ainda acreditam que a mulher deve obedecer e fazer tudo o que o homem deseja, que ele tem mais é que ficar sentado na frente da TV enquanto a mulher cozinha e traz uma cerveja gelada para ele. Isso é algo que ainda vemos sendo reproduzidos nas novelas, vemos na nossa própria família, vemos na rua. Com certeza, o que eu mais desejo no aspecto de relacionamentos, é o fim dessa cultura de superioridade masculina.

Sara: O que mais gosto de fazer na companhia da minha namorada no Brasil e poder ir no cinema, ter um jantar romântico, ir pra praia, ficar em casa deitada assistindo Netflix não pode deixar de entrar nessa lista hahaha

(@amoresanonimos, @rafhaellak)